Comprei Flores
- Karoline Pereira
- 17 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024

A máquina de lavar está cheia de roupas para estender. Na verdade, preciso decidir entre estender no varal ou colocar para secar, já que o tempo hoje está nublado e corre o risco de chover e eu ter que sair as pressas para recolher as roupas. É esse tipo de pensamento que ocupa minha cabeça, quase que o tempo inteiro. Um pensamento que quer otimizar as coisas práticas, encontrar um jeito de fazê-las da melhor forma e do jeito mais rápido. Uma constante busca por eficiência.
Recentemente, descobri que esse tipo de funcionamento tem um preço. Um preço bem alto. Parece organização e praticidade. Parece um bom jeito de operar e de cuidar da casa, agenda e filha. Só parece. As coisas funcionam bem. Comida na geladeira, almoço fresco quase todos os dias, jantar garantido (para quem quiser comer - exceto a criança que sempre tem o prato pronto), roupas limpas no guarda-roupa, etc.
Mas por que esse vazio e essa angústia insiste em me habitar? Uma vez que eu consigo fazer tudo que me proponho a fazer, por que sinto que ainda falta?
Minha terapeuta me mandou comprar flores, enfeitar minha casa, deixa-lá bonita e cheirosa. Minha casa é organizada, mesmo com uma criança e um filhote de cachorro em plena fase da destruição. Eu gosto de casa arrumada. Louça limpa, roupas sem acumular demais, almoço feito no dia, essas coisas. Quando ela me falou para comprar flores, lembrei que fazia muito tempo que não havia flores em casa, inclusive, meu quintal estava uma completa bagunça, porque a Zezé (meu filhote de tiranossauro Rex) destruiu absolutamente tudo que já foi plantado. Manjericão, limão, pimentas, tomates e todas as flores do canteiro. Não restou nada. E eu não conseguia pisar no meu quintal. E o deixei, cheio de terra, pedaços de flores e raízes espalhados por pelos menos dois dias seguidos. Logo eu, que gosto de casa organizada...
Ontem, foi um dia muito pesado para mim. Tudo, absolutamente tudo, saiu do script. Carro parou de funcionar, a criança decidiu postergar a soneca (e nada mexe mais comigo de que a quebra de rotina do sono dela) e eu tive uma crise de choro na cozinha (único cômodo que estava organizado na casa). Chorei em silêncio, não queria que Olívia me visse ou ouvisse. Um choro dolorido e profundo, de perder o fôlego. Um choro interrompido por uma criança que chama para abrir um pote de massinha, coisa que eu faço sem conseguir me virar para ela, afinal, eu não queria que ela visse minha crise de choro. Eu aos poucos, me recompus. E fui varrer o quintal.
Limpei toda a bagunça. Tirei toda terra e restos de plantas destroçadas. Arrumei e percebi que precisava de uma poda. Me comprometi a cuidar de novo e fui fazer minha filha dormir.
Estou aqui escrevendo, mas existe um forte impulso de ir estender as roupas no varal, fazer o almoço, porque em breve vou pegar minha filha na escola. Mas, estou me forçando a escrever. Porque eu perdi tanto de mim! Eu uso as demandas da casa como justificativas para não olhar mais para mim e tudo aquilo que realmente me é importante e valioso. É o preço que venho pagando por querer fazer tudo sair do jeito mais eficiente e organizado.
Controle! Nada pode esperar, somente eu e minha vida.
Nada meu tem importância ou valor para mim. Eu coloco tudo na frente e quando tudo está pronto, quando não há mais nada a ser cuidado ou arrumado, eu fico perdida. E eu estou completamente perdida.
Sabiamente, minha terapeuta me mandou comprar flores. Ela me conhece, as vezes, penso que ela me conhece melhor que eu mesma. Eu achei que havia entendido o que ela estava sugerindo. Eu fiz, com obediência. Fiz como tarefa. Mas foi somente ontem, depois da crise de choro que eu realmente compreendi o que ela me sugeriu. Ela é aquela voz que diz:
Karol! Olha a janela, veja que paisagem linda! Esquece se vamos chegar a tempo! Aprecia o caminho, Karol.
Eu entendi o que eu perdi. Perdi a poesia da vida. Perdi a sensibilidade e o aconchego das coisas. Perdi a comtemplação e o deleite. Perdi a doçura e amorosidade. Me tornei uma dona de casa competente, uma mãe competente, uma esposa incompetente e uma profissional boa. Fiquei estéril, fiquei fria, distante e funcional. E estou em profundo sofrimento porque eu não aguento mais ser boa e me sentir fracassando o tempo todo. Em não mais conseguir aproveitar as coisas sem pensar nas contas, nas roupas, no almoço, nas planilhas, na casa que precisa de cuidados. Eu não consigo mais relaxar, vivo exausta, preocupada e funcionando.
Eu não quero mais me justificar nas coisas que tenho para fazer. Não quero viver uma vida funcionando apenas. Não quero só resolver e organizar as coisas. Eu quero voltar a sentir, contemplar, escrever… Quero reencontrar minha amorosidade, o cuidado com doçura e aconchego. Eu já sei que meu resgate começa dentro da minha casa. Só preciso tomar cuidado para não cair numa armadilha de usar o cuidado como justificativa. Ontem, varrer o quintal foi como varrer algo dentro de mim. Tem coisas que precisam ser podadas em mim. Estou tão fechada, tão densa que a luz não entra, o jardim não floresce e nada parece sair.
Eu preciso cuidar da minha morada, preciso arrumar aqui dentro, preciso de silêncio para poder me ouvir outra vez. Sinto que preciso encasular. Me cercar de pequenos cuidados e de tempo, sem resolver nada. A vida não pode ser apenas uma sequência de coisas as serem resolvidas, pelo menos, eu não quero mais viver uma vida em que só resolvo coisas ou penso no que fazer para resolver.
Então, comprei flores.
Para me lembrar que preciso de beleza e poesia. Estou tentando escutar mais músicas, porque preciso lembrar que cantar também é gostoso. Varri meu quintal, para lembrar que não há sujeira que não possa ser limpa, ou jardim que não possa ser replantado. Comprei flores para me lembrar que nem tudo precisa ser prático, objetivo ou ter utilidade. Comprei flores para lembrar que a vida é bonita, mesmo nos dias mais caóticos. Acima de tudo, comprei flores para não me esquecer daquilo que realmente importa.





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